sábado, 15 de setembro de 2012

Sombras



"
Nossas cantoras não ateiam fogo às vestes quando são abandonadas pelos amantes, não se descabelam, não sofrem ao microfone. Elas não querem correr riscos, querem ser cool. Amy Winehouse sabia que onde não há dor não há ganho. Com homens e bandas, aqui e alhures, não é diferente. A impressão é a de que a sociedade ocidental hoje tem imensa dificuldade de se relacionar com as sombras. Entrou numa viagem sem volta de Prozac. Claro, a morte está aí, mas a turma olha pro outro lado e pede pra não beijar na boca.
"
Arthur Dapieve
...
Trecho adaptado de texto publicado em O Globo de 14.09.12, como pode ser lido aqui.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Cosmópolis



Cosmópolis, de David Cronenberg. Ao entrar no cinema, sala mais cheia que esperava. Ao lado do assento que selecionei quando a sala ainda estava limpa no mapa, um jovem acompanhado da família. Havia outras famílias. Sento. Levanto. Vou para o corredor. Passam por mim um bando de meninas em busca de um vampiro. Espero a hora de começar o filme e procuro um lugar sozinho, longe. As meninas riem, nervosas. Atrás de mim alguém devora um saco barulhento de alguma coisa. Enquanto reflexões sobre o capitalismo dialogam na tela, bocejos sussurram na sala escura. Um levanta, depois outro. Enquanto as vísceras do mundo contemporâneo são expostas,  pessoas desanimam. Menos as meninas, que continuam suspirando a cada pedaço de carne esbranquiçada do protagonista. Ao final, um homem bate palmas de forma intensa, e lamenta - Mas que merda! As famílias que vieram atrás do galãzinho hollywoodiano saem decepcionadas. Não era esse o espetáculo que esperavam. Eu, deslocado da poltrona que me cabia, assisto a tudo, sozinho.

domingo, 2 de setembro de 2012

Laura em um instante


Há uma sabedoria popular que diz que a diferença entre o remédio e o veneno é a quantidade. Comigo não foi bem assim. As pequenas doses diárias de Laura quase me mataram de saudade. Mas foram elas que mantiveram minha sanidade. Dia 6 completam 6 meses que comecei a consumir as Pílulas de Laura. Nesse período, aprendemos a dialogar, dividimos prazeres e rotinas, rimos juntos. A partir de agora, não precisarei mais de um monte de fotos pra preencher qualquer espaço. Aprendi com minha pequena que a alma é feita de câmaras, algumas de vazios perpétuos - ou nunca foram ocupadas ou, quando abandonadas, nunca mais serão. Outras, são como uma Sala Precisa, que se amplia e se mobilia de acordo com a necessidade do coração.
O amor de Laura é preciso. Já viver...

Balão


Foi no fim do verão, quando o céu ficou cinza, queu perdi meu balão. Desde então, como um anjo ou maldição, sua sombra paira sobre minha cabeça.
...
Imagem de Laurent Chehere. Tanto Laurent quanto a Pixar inspiraram-se no filme Balão Vermelho.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Vestido de Noiva


Melancholia. Ao entrar para o banho quente, repensei o quanto me perturbei com um filme visto no início de julho e que, afinal de contas, é apenas uma grande síntese da vida. Certamente, diferentemente de alguns outros, o meu incômodo não estava na Grande Verdade revelada, mas sim na presença da criança diante de tais circunstâncias. Espelhamento na Laura, certamente. Talvez algum traço de melancolias de infância, vai saber. Mas, então, percebi. Como uma epifania, entendi o abandono de tudo, a desistência de todos, a espera amarga. Quando tantos veem festa, Justine só enxerga fim. Onde tantos veem arte, ela só enxerga fim. As certezas científicas que tantos veem, ela só vê fim. As convenções não fazem sentido, as cerimônias, reverências e ambições. Tudo é fim. Um a um será abandonado, até o momento que todos começam a enxergar o fim. E aí, então, vem a serenidade. Pelo menos a de Justine. É diante da porta de saída que seu olhar se volta para a única coisa que interessa - a criança, a única personagem que nunca teve condições de entender o que se passava. Infelizmente, não haverá tempo para seu amadurecimento. Enquanto der, aí sim cabe a simulação, o jogo, a encenação.
Entendo bem o que é abandonar o que ninguém teria coragem. Entendo também o que é tentar enquanto tantos pensam em desistir. Curiosamente, como Justine, eu entendo. Que a caverna mágica nos proteja.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Point Reyes


                              Barco perdido
                                  jaz encalhado.
                              Maré vazante,
                                  abandono de casco
                              em meio à partida.
                              Não há portos a alcançar
                                  nem beijos de despedida.

                              Vento sentido
                                  em tudo parado.
                              Faca cortante,
                                  tecidos em rasgo.
                              Ilha que espera
                                  que o mar lhe retorne.
                              Horizonte vazio
                                  aponta pro norte.