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quarta-feira, 25 de julho de 2012

O Nada



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‘Nothing comes from nothing/nothing ever could..." (Nada vem do nada/nada poderia vir…)
A frase não é de nenhum físico ou filósofo. É do musical “A noviça rebelde” e seu autor é Richard Rodgers, que no caso, além da música, fez a letra, em vez do seu parceiro Oscar Hammerstein (se pode-se confiar no Google). Rodgers, sem querer, tocou num ponto muito discutido entre as pessoas que se interessam pelo Universo e como ele ficou deste jeito.
Em todas as teorias sobre a criação e a expansão do Universo sempre se chega a um ponto em que ou você aceita que algo se criou do nada ou você abandona qualquer especulação cientifica e vai criar galinhas. Hoje a própria hipótese de tudo ter começado com um Big Bang, que você e eu pensávamos que não era mais hipótese e sim uma verdade indiscutível, está sendo discutida. E o problema é o que fazer com o nada. O que havia antes do Grande Pum era o nada ou antes — só para complicar — não havia nem o nada? Os físicos dizem que o próprio tempo começou com o estouro inaugural que formou o Universo em segundos e portanto não faz sentido falar-se em “antes”. Mas se antes não havia nem antes havia um nada absoluto, do qual, desmentindo o Richard Rodgers, criou-se o Universo. Houve um tempo em que pensar muito sobre tudo isso chamava-se “puxar angústia”.
A descoberta do tal bóson de Higgs foi um feito extraordinário da física. Intuíram a sua existência, concluíram que ele precisava existir mesmo que nunca o tivessem visto, foram atrás e o encontraram. Chegou-se mais perto da chamada teoria unificada do Universo que já era o sonho do Einstein — agora só restam umas duzentas perguntas para serem respondidas. E o nada continuará incomodando.
A mãe do Woody Allen, num dos seus filmes semiautobiograficos, impacienta-se com a preocupação excessiva do menino com o Universo e pergunta: “O que você tem a ver com o Universo?” Muita gente prefere fazer como aquele inglês que passa por um campo de batalha sem se abaixar ou tomar qualquer outra precaução com as balas que voam ao seu redor, pois é um estrangeiro e a guerra não lhe diz respeito. Não temos como nos precaver contra o que o Universo nos reserva, mas ele decididamente diz respeito a todos. Até criadores de galinhas...
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Luis Fernando Veríssimo

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O texto foi publicado em O Globo de 22.07.12. A imagem é de Alberto Montt, via Toca do Calango.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Escondam minha fantasia

D Pedro II - Batistão Salinger2 Wood Alen - Leo Martins zinedine_zidane_samuel casal Chamou-me a atenção a morte no último 16.02 de Abdulkhakim Ismailov, soldado soviético que aparece na foto abaixo, de 1945. O interesse despertado deveu-se não por ser um personagem histórico, mas sim por saber de sua existência. A fotografia, tão representativa sobre a vitória soviética sobre os alemães e a conquista de Berlim, nunca me fez pensar em quem são as pessoas presentes. Arquivo vivo, momento congelado, simulacro de algo de outro plano, não mais existente.
Só foi identificado como elemento da fotografia em 1996, mas para tantos que conhecem a imagem, sua existência sempre fora ignorada. Teria dimensão de sua importância? Tal questão fez-me refletir sobre texto de O Globo tratando de personalidades reclusas, matéria motivada pela morte de J. D. Salinger, autor de “O apanhador no campo de centeio”. Pessoas que se esquivaram da exibição pública, passando ao largo da fama que conquistaram. Quem recusaria a celebrização que tantos desejam?
Lembrei-me então de algumas figuras que, mesmo sem recusar o reconhecimento, remaram contra a maré. Pedro II republicano em Paris. Woody Allen ausente em sua premiação do Oscar. Bill Watterson e a desistência comercial de Calvin & Haroldo. Zidane sendo expulso em sua despedida do futebol na final do mundial de 2006. Quando você fantasia que é alguém, veste o traje inteiro ou fica só com os melhores momentos?Yevgeny Khaldei - Soldados do Exército Vermelho levantam a bandeira da União Soviética sobre o estandarte dos nazistas em Berlim em 1945
Pedro feito por Batistão. J D e Woody, Leo Martins. Zizou, Samuel Casal.
Bill é o de bigode aí abaixo, feito pelo próprio e postado aqui.Calvin, Haroldo e Watterson